quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Novo Blogue

A partir de hoje vou começar a escrever num blogue novo. O link é http://www.shmellsfindingneverland.blogspot.com. Todos os poemas que coloquei neste irei colocar também nesse blogue.
Passem por lá e vão deixando comentários ;)

domingo, 23 de maio de 2010

Piano

Não me apetece fazer grande introdução a este poema. Chama-se Piano e escrevi-o à pouco mais de um ano.


Cai a chuva lá fora,
O vento faz-se ouvir enquanto sopra,
O bairro dorme, mudo,
E o piano, levemente, toca.

Só ele o escuta
Enquanto ela o faz cantar,
Suavemente dedilhando
Suas músicas de embalar.

Melodias fazem sonhar
Acordado noite dentro
Fazendo o tempo parar
Um segundo, p’ra meu contento.

Como se cada manhã fosse igual
Cada dia fosse Domingo,
Como se esse primeiro beijo
Se fosse eternamente sentindo.

As primeiras noites
Não fossem apenas memória
Repetindo-se toda a vez,
Todas com uma diferente história.

Desde o olhar ao sorriso,
Até ao cabelo intrometido,
Todos eles dançam ao ritmo
Desse instrumento antigo.

Voltando a si ele repara
Que a música abrandou
E que as notas de raiva que escutara
São agora de uma paixão com que sempre sonhou.

sábado, 24 de abril de 2010

Cinema

Há alturas em que a vida parece um filme. Tudo se passa demasiado rápido, a um ritmo alucinante, e nós, em vez de personagens, tornamo-nos espectadores da nossa própria história.

Há outras alturas em que desejamos que a nossa vida fosse um filme. Não um drama, não de terror, talvez de aventura, mas principalmente daqueles em que tudo acaba bem. Um daqueles filmes onde, como por magia, tudo se encaixa no seu devido lugar, a história desenrola-se, com todos os seus percalços, para culminar num final feliz.

Tudo isto para introduzir um poema que escrevi recentemente, ao qual dei o nome de Cinema. Espero que gostem.

Escuto ao fundo um sopro do destino,
Uma voz doce que encanta,
Um sorriso genuíno
Numa noite entre tantas.

Não tenciono prender-me
Nem sequer reter-me no tempo,
Mas ao passar por aquela rua
Fico preso no momento.

Um momento em que passava
Sem nada a atenção me despertar,
Dei por mim a ver uma fada
Como se fosse minha consciência a falar.

Guardei para mim esse segredo
Acabando por o revelar
Outra noite, mesmo enredo,
Uma história ainda por contar.

Acaba o primeiro filme,
O público sai da sala desiludido
Sentindo, no entanto,
Não se tratar de tempo perdido.

E ninguém os pode censurar, realmente
Com o cinema às escuras
A fita começa a rodar novamente
Deixando antever o final
Pelo qual aguardava esse público descrente.

sábado, 10 de abril de 2010

Palavras II

Continuando o post anterior, aqui vai o tal poema. Uma simples diarreia verbal, uma introspecção típica da adolescência, escrita dia 9/5/2006, tinha eu 17 anos.

Como passar para palavras o que se vê?
Uma imagem vale mais que mil palavras,
Mas nem sempre toca um pessoa
Com a intensidade de uma frase.

Uma frase nem sempre é tão directa e sincera
Como a sinceridade de uma imagem.
Um gesto, por vezes, desperta sentimentos
Que nem a mais bela frase consegue despertar.

A imagem pode esconder,
Mas o gesto não o pode negar.
As palavras podem mentir,
Mas o sentimento acaba por se revelar.

Ao exprimir o que se sente
As palavras podem não chegar,
A imagem pode se desfocar,
Mas o gesto acaba sempre por se ouvir,
Transmitindo a mensagem
Com a intensidade com que o sol se faz sentir.

Nada diz "amo-te" de forma tão inocente e sincera
Como uma simples flôr.
A palavra esconde-se na imagem
Com um simples gesto,
Exprimindo um sentimento puro
De um modo directo.

Nada como uma expressão
Para demonstrar a falta de afecto.
Nada como um sorriso
Para chamar a atenção de um olhar discreto.

Nada como um abraço
Para sentir a vida correr nas veias
Com a energia de uma estrela
E a beleza de uma sereia.

A vida não é tão má
Como leva a crer.
Basta aprender a sentir
O que nunca se quis viver.

Ouvir o mundo a falar
Através do vento e do mar.
Sentir a chuva a cair,
Olhar para cima e sorrir.

Sentir a água a escorrer,
Mergulhar no mundo e crescer.
Ouvir um pássaro a cantar,
Ver uma árvore tocar no ar.

Saltar de uma encosta para o oceano.
Olhar para cima
E sentir prazer no que se subiu
Para um momento poder viver.

Pensar no que se viveu
E ter orgulho de o ter vivido,
Sentir-se realizado
Por ter em cada instante sentido.

Das memórias ficam imagens
Por palavras, então, descritas,
E só o gesto de as descrever
Exprime a ilusão das escritas.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Palavras I

(Hank) - The most likely it’s piece of crap, I won’t know until you tell me. ‘Cause that’s the way it goes, that’s the way it’s always gone. I can’t tell the difference between the ridiculous and the sublime until you tell me. Now, be careful with that, you got my life there in your hands.

(Karen) - Hank, don’t say…This is just words…You know, it’s words, ok? Take it.

(Hank) - Well, words it’s all I’ve got left to play with, so be gentle…

Isto é um pequeno diálogo da série Californication, uma das minhas séries preferidas. Provavelmente muita gente conhece bem a série. Para quem não conhece, esta retrata o dia-a-dia de um escritor famoso que se vê perante uma “crise” na carreira, não conseguindo escrever nada. Provavelmente causa de uma relação disfuncional com a sua ex-mulher, que acaba por o trocar por outro homem, levando-o a passar a vida a fugir, dormindo com quem calha, onde calha, quando calhar…

Mas vamo-nos focar apenas na última frase do diálogo. Quem quiser ver a série tem bom remédio, existem inúmeros sites com links de onde podem baixar os episódios.

As palavras são daquelas coisas com que sempre poderemos brincar. Afinal, neste mesmo Portugal, em anos de ditadura, não assim há tanto tempo quanto isso, cantores, escritores, jornalistas, entre outros, brincavam com palavras, provocando políticos cujas ideologias eram intocáveis pelo mais comum dos mortais. No entanto, o povo arranjou maneira de as criticar e ridicularizar através de canções e escritos, muitas vezes aparentemente inocentes.

Este é apenas um dos muitos exemplos do poder da escrita. Se é verdade que uma imagem vale por mil palavras, muitas vezes não temos uma câmara fotográfica à mão para a poder captar, mas já uma caneta, um caderno, ou, mais recentemente, um telemóvel com capacidade para escrevermos mensagens inacabáveis, são sempre objectos pertencentes a uma mochila ou uma mala de senhora. Desta forma, tudo o que vejo, tudo o que sinto, tudo o que pressinto, passo-o para palavras, imortalizando assim esse instante no tempo, tendo a certeza que, pelo menos por mim, não será esquecido.

Assim, visto que hoje já ocupei mais espaço do que aquele que pretendia, amanhã vou colocar aqui um poema que escrevi. Tal como o anterior, este já tem algum tempo, data de 2006, e refere-se à escrita e às ilusões associadas, aos sonhos, a toda uma fantasia recorrente em que se pode emergir. Toda uma fantasia em que se entra quando "viaja" pela própria vida…

domingo, 4 de abril de 2010

Recordações

Andei aqui a vasculhar as gavetas da minha secretária e descobri poemas, desabafos e outros textos sem sentido que escrevia quando estava no secundário. Recordando assim essa preparação para o que viria a ser a actual viagem em que me encontro, fica um poema que escrevi a 31/10/2005, chamado “Olhos”.


Nos teus olhos vejo
Um mar de coisas sem fim,
Um reflexo desfocado,
As flores de um jardim

Nos teus olhos vejo
A esperança que nunca tive
A dor que terei.
A felicidade de quem vive
No castelo de um rei.

Nos teus olhos vejo-me
A viajar. Navegar nas tuas lágrimas,
No teu coração aportar,
Como que em busca de tesouros
Que uma pirâmide possa guardar.

Procurei lá no fundo
Por uma réstia de luz.
Entrei num novo mundo,
Fiquei preso no tempo
Sem tentar fugir,
A saborear o momento.

Agora nos meus olhos
Sinto falta dele.
Tento alcançá-lo
Mas não consigo tê-lo.

Agora nos meus olhos
Sinto lágrimas a cair
Por um instante passado,
Por algo que há de vir.

Nos meus olhos vejo
Escuridão. Um espelho partido
Vazio, um caixão.
A vida a fugir-me
Por debaixo da minha mão.

Com os teus olhos vejo
Um futuro único para nós,
O fim do desespero,
A prova de que não estamos sós.

Com os teus olhos vejo os meus.
Nos meus olhos vejo os teus.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Vícios

Numa altura em que ando a tentar deixar para trás um vício, muitas vezes mais forte do que eu, que é o tabaco, apeteceu-me parar para reflectir um pouco sobre o mesmo.

Aos olhos de quem não fuma, não passa de um vício estúpido e prejudicial para a saúde. Não poderia estar mais de acordo. Afinal que raio de hábito é esse de entupir os pulmões com fumo, várias vezes por dia, seja a seguir ao almoço, no café, ou na noite, enquanto se saboreia uma cerveja. Porquê? Qual a razão de o fazer?

Bem, normalmente tudo começa por parvoíce, na ânsia típica da adolescência, de experimentar, de quebrar regras, de ser aceite pelo outro. O discurso é sempre o mesmo: “Só um não faz mal, eu consigo deixar quando me apetecer”. Mas depois olharmos para nós e apercebermo-nos de que estamos viciados. Nessa altura o discurso muda para “Eu tenho de deixar de fumar…”. Mas será que realmente o queremos?

Afinal de contas, o ser humano passa a sua vida em busca de prazer como forma de atingir a felicidade. Que forma mais fácil e rápida, e até há pouco tempo, barata, de o atingir do que um cigarro a meio do dia? Basta dirigirmo-nos ao café mais próximo e comprar um maço, abri-lo, pôr um cigarro na boca e acendê-lo. Mas porque é que isto se torna um ritual?

Muitas vezes um cigarro torna-se uma companhia, uma segurança, um mal que está ao nosso lado, mas não nos falha (só quando se acabam os trocos). Naquele momento antes de acender um cigarro, em que o isqueiro nos insiste em falhar, há uma ansiedade tão grande como aquela antes de um primeiro beijo dado a medo. A calma, a segurança, a alegria temporária sentida após dar o primeiro bafo, por vezes são muito semelhantes à felicidade sentida após esse beijo. Daí que seja um vício tão difícil, para alguns até mesmo impossível, de deixar.

Para acabar, deixo-vos com um poema que escrevi há cerca de um ano, durante uma das minhas tentativas frustradas de deixar de fumar.

Pego em ti uma última vez
Como se da primeira se tratasse.
Saboreio-te lentamente
Deixando que o tempo te leve.

Não sei porquê, mas voltei para ti,
Só mais desta vez…
Sentir junto a meus lábios
Esse prazer que alguém fez.

E na derradeira experiência
Ouso olhar à volta
E apreciar a verdadeira essência
De algo que não volta.

E ao querer largar-te, hesito.
Tenho medo de te deixar para trás,
Que nesse segundo
Passes de verdade a mito.

Toco-te mais uma vez
Para ter a certeza que não te esqueço,
Na esperança de que vejas
Aquilo que te ofereço.

Acabo por te largar,
Por te atirar janela fora.
Enquanto te vejo a voar
Não quero acreditar que foste embora.

Se fosse tão fácil ter-te de volta
Como estes vícios pouco saudáveis
Matava de vez a saudade
Tornando-nos inseparáveis.